Quando Brasil e Haiti entrarem em campo pela Copa do Mundo de 2026, nesta sexta-feira (19), estarão revivendo uma história iniciada muito antes do sorteio dos grupos. Em agosto de 2004, as seleções protagonizaram o chamado “Jogo da Paz“, amistoso organizado em meio à crise política que abalava o país caribenho.
A partida levou cerca de 15 mil pessoas ao Estádio Sylvio Cator, na capital Porto Príncipe, e provocou uma mobilização rara da população. Apesar da goleada brasileira por 6 a 0, o que ficou marcado para os presentes foi a oportunidade de ver de perto ídolos como Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho.
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Por algumas horas, o futebol ocupou o centro das atenções, transformando as ruas da cidade em um cenário de festa.

A crise no Haiti
O Haiti mergulhou em uma grave crise política após as eleições de 2000, vencidas por Jean-Bertrand Aristide sob acusações de fraude. Nos anos seguintes, o país enfrentou instabilidade econômica, protestos populares e uma escalada de violência.
Sem o respaldo do Exército, dissolvido anos antes, Aristide passou a depender de grupos armados para manter sua influência. Ao mesmo tempo, rebeldes formados por ex-militares e outras facções iniciaram uma ofensiva contra o governo.
Em fevereiro de 2004, os insurgentes chegaram a Porto Príncipe e forçaram a renúncia do presidente. Pouco depois, a ONU criou a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah), liderada pelo Brasil, para restaurar a segurança no país.
Como nasceu o amistoso
A ideia de colocar Brasil e Haiti frente a frente surgiu como forma de contribuir para o processo de pacificação do país caribenho, historicamente apaixonado pela seleção brasileira. A proposta foi impulsionada pelo governo brasileiro e recebeu apoio da CBF e da Fifa.
O amistoso, batizado de “Jogo da Paz“, foi marcado para 18 de agosto de 2004, pouco mais de cinco meses após a renúncia de Jean-Bertrand Aristide. Técnico da Seleção naquele ano, Carlos Alberto Parreira convocou algumas das principais estrelas do futebol mundial, como Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos e Adriano.
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Por questões de segurança, a delegação brasileira só desembarcou em Porto Príncipe horas antes do duelo. O trajeto até o Estádio Sylvio Cator se transformou em uma das imagens mais marcantes daquele dia: jogadores e integrantes da comissão técnica seguiam em veículos blindados escoltados por tropas da ONU, enquanto milhares de haitianos acompanhavam a passagem pelas ruas da capital.
Muitos se espremiam em calçadas, sacadas, telhados e até árvores para tentar ver de perto os ídolos. A cena ficou marcada na memória do volante Magrão, ex-Corinthians, Internacional e Palmeiras, um dos convocados para o amistoso.
“O que mais me marcou foi a paixão do povo haitiano pelo futebol e a realidade que eles viviam naquele momento. Nós nos deslocávamos em tanques militares e, durante o trajeto, víamos pessoas armadas com fuzis observando nossa passagem do alto de contêineres e construções improvisadas.
Ao mesmo tempo, era impressionante ver a população correndo atrás dos tanques, acenando, chorando e demonstrando uma felicidade enorme apenas por ver a seleção brasileira ali”, disse Magrão ao 365Scores.

Como foi o jogo entre Brasil e Haiti
Para reforçar o caráter pacificador do evento, os ingressos da partida não foram vendidos por dinheiro, mas trocados por armas de fogo, em uma iniciativa ligada à campanha de desarmamento promovida no país.
Ao entrarem no estádio, torcedores haitianos viram uma goleada de 6 a 0 da Seleção, com três gols de Ronaldinho Gaúcho, dois de Roger Flores e um de Nilmar. No entanto, o placar era o que menos importava: a cada gol brasileiro, a própria torcida local comemorava nas arquibancadas, maravilhada em ver seus ídolos de perto.
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Entre os jogadores que participaram do amistoso, Roger Flores também guarda lembranças especiais daquela tarde em Porto Príncipe.
“Nós víamos um olhar incrédulo por aqueles jogadores do nível do Ronaldo, Ronaldinho, Roberto Carlos estarem ali perto. Eram os grandes ídolos deles. Eu não fui um cara tão assediado, era um mero coadjuvante ali, mas pude curtir aquela energia.
Fico muito feliz em saber que aquele jogo, de alguma forma, ajudou a desenvolver o futebol deles. O que aconteceu ali foi muito mais do que um jogo de futebol. Era o encontro entre a maior seleção do mundo com um país que vivia uma guerra civil. Um dia de paz, de alegria e lembranças boas para aquele povo”.
O reencontro em 2026
Vinte e dois anos depois de um dos episódios mais simbólicos da relação entre os países, Brasil e Haiti se reencontrarão em um contexto completamente diferente. As seleções entram em campo precisando de uma vitória para manterem vivas as chances de classificação no Grupo C da Copa do Mundo.
A Amarelinha ocupa a terceira colocação da chave, com um ponto conquistado. Os Granadeiros aparecem logo atrás, ainda sem pontuar, e podem ser eliminados em caso de derrota.

Apesar das condições competitivas de jogo, o confronto desta sexta-feira, às 21h30 (de Brasília), no Lincoln Financial Field, na Filadélfia, também servirá para relembrar um capítulo histórico das duas equipes.
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“É difícil fazer uma comparação entre o nível da seleção brasileira e o futebol haitiano. É claro que, de 2004 para cá, nesses 22 anos, o Haiti evoluiu. Mas, quando falamos de Copa do Mundo, existe ainda uma diferença muito grande entre as duas seleções.
No futebol, é verdade que surpresas acontecem. Mas, analisando tecnicamente e pelo histórico das duas equipes, seria uma grande zebra imaginar o Haiti surpreendendo o Brasil em uma Copa do Mundo”, finalizou Magrão.
Ficha técnica do “Jogo da Paz”
- Data: 18 de agosto de 2004 (quarta-feira)
- Competição: Amistoso Internacional (“Jogo da Paz”)
- Local: Estádio Sylvio Cator, em Porto Príncipe (Haiti)
- Público: Cerca de 15.000 espectadores
- Árbitro: Paulo César de Oliveira (Brasil)
- Gols: Roger (19′ e 41′ do 1º tempo), Ronaldinho Gaúcho (32′ do 1º tempo; 21′ e 36′ do 2º tempo) e Nilmar (40′ do 2º tempo).
Escalação do Brasil: Júlio César (Fernando Henrique); Belletti, Juan (Cris), Roque Júnior e Roberto Carlos (Adriano); Gilberto Silva (Renato), Edu Gaspar (Magrão), Juninho Pernambucano (Pedrinho) e Roger Flores; Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo (Nilmar). Técnico: Carlos Alberto Parreira.
Escalação do Haiti: Fenelon; Gilles, Turlien, Pierre e Jean-Jacques; Altidor (Lecsinel), Romulus, Tardieu (Boucicaut) e Peguero; Coriolan (Valdo) e Jamil Jean. Técnico: Carlo Marcelin.
Grupos da Copa do Mundo
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