Zebra na Suíça? Conheça o FC Thun, a sensação da liga

Antes do início da temporada na Suíça, era mais do que normal as previsões apontarem os tradicionais candidatos de sempre na corrida pelo título. Basel, Young Boys, St. Gallen e Lugano surgiam como favoritos naturais. O futebol suíço, porém, decidiu contrariar o roteiro.

Às margens de um lago, cercado pelos Alpes suíços, em uma cidade de apenas 45 mil habitantes, outro protagonista emergiu. Recém-promovido à primeira divisão, o FC Thun pode transformar 127 anos de história em seu maior feito: conquistar, neste sábado (25), contra o Lugano, o Campeonato Suíço pela primeira vez. Uma vitória garante a taça.

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A campanha ajuda a explicar o tamanho da surpresa. O clube assumiu a liderança ainda na quarta rodada e não saiu mais do topo da tabela. São 74 pontos conquistados, 14 de vantagem sobre o St. Gallen com cinco rodadas ainda por disputar, em uma trajetória marcada por regularidade e vantagem confortável sobre equipes mais tradicionais do país.

Como tudo começou?

O FC Thun nunca figurou entre os protagonistas do futebol nacional. Fundado em 1898, passou mais de um século distante do topo. Sua galeria de troféus é modesta: apenas os títulos da segunda divisão em 2009/10 e 2024/25.

O melhor desempenho na elite até então havia sido o segundo lugar em 2004/05, campanha que garantiu uma vaga inédita na Liga dos Campeões. Na fase de grupos, a equipe quase arrancou um ponto improvável contra o Arsenal em Highbury, mas um gol tardio de Dennis Bergkamp frustrou a surpresa.

FC Thun encarou o Arsenal de Thierry Henry na Liga dos Campeões – Foto: Fabrice Coffrini/AFP via Getty Images

Ainda assim, o Thun terminou em terceiro lugar em sua chave, à frente do Sparta Praga. O capítulo europeu foi memorável, mas não alterou seu status no cenário nacional.

Há cinco anos, o cenário ficou delicado. Após um rebaixamento, o clube enfrentou sérios problemas financeiros e esteve mais próximo do desaparecimento do que de qualquer sonho esportivo. Investimentos do proprietário chinês, Chien Lee, e do membro do conselho Beat Fahrni evitaram o colapso e garantiram a continuidade da instituição.

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Com o futuro assegurado, iniciou-se um projeto esportivo de médio prazo. Em 2022, Mauro Lustrinelli – ex-jogador do clube – assumiu o comando com a missão de consolidar uma identidade clara. A proposta era direta: futebol agressivo, vertical e emocionalmente envolvente.

Lustrinelli implementou o 4-2-2-2 e fez uma escolha pouco convencional: reduzir deliberadamente a posse de bola – média de 46,3% – para potencializar transições rápidas e ataques verticais.

Os números nesta temporada confirmam a aposta: sua equipe tem o melhor ataque e a melhor defesa do Campeonato Suíço, com 75 gols marcados e 38 sofridos. Na campanha da subida, o cenário foi o mesmo.

Escudo do FC Thun
FC Thun

Campanha na Temporada

Jogos Disputados 33
Pontos Conquistados 74
Vitórias 24
Empates 2
Derrotas 7
Gols Marcados 75
Gols Sofridos 37
Saldo de Gols 38

Preservar essa identidade tornou-se prioridade. Ela foi determinante para o acesso na temporada passada e sustenta agora a campanha pelo título. A manutenção da base do elenco também se mostrou decisiva.

Mesmo com o retorno à elite, o clube optou por reforços pontuais, priorizando coesão, entendimento coletivo e continuidade. Segundo dados do Transfermarkt, o Thun tem o quinto menor valor de mercado da liga, estimado em 22,43 milhões de euros (R$ 130 milhões).

Seus atletas mais valorizados, o volante Franz-Ethan Meichtry e o atacante Elmin Rastoder, estão avaliados em três milhões de euros cada (R$ 17 milhões) .

A diferença fica ainda mais evidente no mercado: enquanto Basel e Young Boys investiram cerca de 18 e 19 milhões de euros, respectivamente, o Thun gastou apenas 1,69 milhão de euros em contratações.

A conexão com a cidade

Em Thun, o futebol nunca foi a principal referência esportiva. Cercada pelos Alpes, a cidade respira esportes de inverno. Durante anos, quem buscava um grande clube para torcer olhava para Berna, a cerca de 30 quilômetros dali, onde o Young Boys se consolidou como uma das potências nacionais.

A temporada 2025/26, porém, alterou essa dinâmica. O desempenho consistente do time reacendeu o interesse local. A modesta Stockhorn Arena, com capacidade para 10 mil pessoas, passou a receber públicos cada vez mais próximos do limite.

Stockhorn Arena, casa do FC Thun – Foto: Manuel Winterberger/Eurasia Sport Images/Getty Images

Pela primeira vez em muito tempo, o clube deixou de ser coadjuvante até mesmo dentro da própria cidade. Mesmo em um futebol cada vez mais globalizado, a diretoria entende que o vínculo regional é parte essencial do projeto. A identidade construída nos últimos anos não se limita ao campo e busca reconectar o clube com sua comunidade.

“O Leicester suíço”

A cada surpresa que surge em um futebol cada vez mais dominado por potências financeiras, a comparação com a histórica campanha do Leicester, em 2016, ou até a do Mjallby, da Suécia, em 2025, são inevitáveis. Internamente, porém, o FC Thun evita esse tipo de paralelo.

O título passou a ser tratado como possibilidade real apenas quando a equipe terminou o primeiro turno na liderança. Até então, o objetivo era mais simples: ficar entre os seis primeiros colocados.

Dentro do planejamento inicial, um segundo ou terceiro lugar já seria considerado um ótimo resultado. Por isso, uma eventual conquista seria vista como consequência direta do trabalho realizado nos últimos anos.

O discurso também foi de equilíbrio. A orientação durante o período em que o sonhou virou uma realidade próxima foi de manter o foco no dia a dia e nos fatores que podem ser controlados, sem deixar que as expectativas externas provocassem oscilações no ambiente.

Há consciência de que um título mudaria o patamar do FC Thun, com participação em competições europeias e valorização do elenco. Ainda assim, a ideia é preservar a filosofia adotada desde o início do projeto.

Tabela do Campeonato Suíço

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